A Sereia Amaralina

05/05/2012 10:41

As águas límpidas do mar de Fernando de Noronha, mais centenas de golfinhos e peixes de infinitas espécies fazem parte do mundo de Amaralina.
Amaralina ainda é menina, e peralta por sinal. Vive levando broncas da mamãe Turmalina, e na escola, especialmente nas aulas de artes não sabe se comportar. Imaginem: Vive querendo ser gente para crescer e encontrar um pescador encantado.
As sereias são mesmo criaturas especiais!
Amaralina passeia por entre as rochas de corais, brinca de esconde-esconde com as amiguinhas Marina e Mariana, e ao entardecer, quando as águas estão turvas devido à chegada da noite, corre para a Concha Troncha, onde adormece não sem antes falar com os peixes elétricos:

- Vê se apagam estas luzes, sussurra já sonolenta. Quero dormir, amanhã tenho uma tarefa importante para cumprir.
Ah! Que sono!


Amaralina adormece ouvindo o canto doce de sua mãe...

- Que tarefa será que nossa estrelinha terá para cumprir...

S E G R E D O

Mas, sabem de uma coisa, quando a gente é criança tudo é possível, pois a fantasia do mundo infantil, os sonhos, as viagens imaginárias por mundo encantados de fadas e duendes povoam com freqüência a nossa imaginação...

- Epa! Vocês conseguem ver comigo a tarefa de Amaralina?

Claro, claro, afinal amiguinhos, o mundo encantado de personagens mágicos, está presente no pensamento de todos nós, crianças.
Olhem só! Amaralina  sairá do  Oceano...Nossa ela está nadando em direção à praia!

- E acaba de chegar a terra firme!

Vejam Amaralina virou menina, virou gente! Sua cauda transformou-se em pernas, e ela entende as pessoas! Amaralina mistura-se a um grupo de crianças que brincam na areia.
A turma estranha aquela menina de olhos doces e modos delicados, pois em terra firme, Amaralina deixou as travessuras.
Aproxima-se mais para se integrar e entender as brincadeiras faz amizade com todos e fica contente por saber que as crianças, a exemplo das sereias são felizes.
Cai à tarde e todos vão para casa. Amaralina, meio perdida, passa a perambular pelas ruas da cidade.
Encantada com o mundo novo, luzes, sons, pessoas. Tudo é novidade!
Já é madrugada quando encontra algumas crianças descalças, maltrapilhas, revirando restos contidos nos latões de lixo dos restaurantes, para matar a fome. Faz frio, as crianças tremem, aproximam-se umas das outras, na vã tentativa de aplacar a gélida madrugada...Amaralina não entende aquele triste quadro, e conversa consigo mesma:

- Aqui não é como o oceano, onde só existem sereias meninas felizes. Aqui encontro algumas crianças felizes, e outras do mesmo tamanho, tristes, abandonadas e infelizes. Ah! Como gostaria de levá-las para o Oceano! Elas poderiam tornar-se sereias como eu e jamais serem tristes. No oceano, as sereias são todas felizes, não existem sereias maltrapilhas, famintas e abandonadas. Lá, todas tem sua concha para dormir, seu banquinho de coral para sentar, seu cardume de peixes elétricos para iluminar as noites, o carinho dos peixes e de todos que habitam no Mar. No oceano reina a harmonia, a igualdade e a PAZ.

Amaralina ainda ajudou as crianças encontrarem alimentos, procurou um cantinho tranqüilo e cantou para que todas adormecessem... Depois, com os olhinhos repletos de lágrimas (sereias também choram), quis voltar para casa, isto é para o mar.  Lá chegando, foi logo procurando Netuno, o Deus do Mar. Altiva, pôs-se a falar:

- Senhor Netuno, como podem as crianças, lá no outro “mundo”, sofrerem assim? Veja o senhor: Hoje, resolvi dar umas voltas em terra firme e fiquei triste com o que vi!  O Senhor, como Deus do Mar, acha que as crianças podem sofrer? Umas alegres, outras abandonadas, não têm nem ao menos uma concha como a minha para dormir! Ah! Senhor Netuno, faça alguma coisa, por favor. Ajude as crianças abandonadas, famintas e maltrapilhas. Sabe, eu gostaria de trazê-las para cá, mas não saberiam viver debaixo d’água – lamentava a sereia menina.

Netuno coçou a barba, virou de um lado, virou para outro e cabisbaixo falou com Amaralina:

- Minha menina, realmente as pessoas lá na terra, especialmente as pobres, sofrem. Sofrem pela falta do alimento, do teto, da educação. Amaralina, o Mar poderia alimentar a todos os pequenos, não fosse a destruição de imensos cardumes devido a poluição. As pessoas poderosas poderiam ainda, oferecer teto, roupas e afeto, entretanto estão permanentemente ocupadas, sempre lutando em benefício próprio. Lá está faltando um sentimento que aqui no Oceano, todos os seres vivos cultivam – a união!

Amaralina quis saber o significado de UNIÃO. Netuno passou horas e horas explicando para AMARALINA o sentido da palavra UNIÃO. A pequena Sereia sonolenta entendeu...

Entendeu que se as pessoas fortes auxiliassem as mais fracas, as crianças não estariam abandonadas.
Entendeu, com muita tristeza, que durante um bom tempo, por todas as vezes que resolvesse pisar em terra firma, encontraria centenas,
milhares de crianças abandonadas, sem conchas para dormir.
Quem ler esta história, da pequena Amaralina, não se esqueça de anotar o recado que ela deixa para todos os amiguinhos:

 UN I Ã O – procure o significado, procurem ajudar, ser útil e solidário.

Amar é algo mais infinito que o Mar!

(Ana Stoppa)

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